Interrogatório:
delegado – testemunha
Delegado: Boa Tarde! Informe ao escrivão seu nome completo e
endereço, por favor.
Testemunha: Rosângela Esperança de Jesus
Rua dos Suspiros, nº 22; apartamento 99; bairro: Dos
Esquecidos, cidade: Socorro –SP
Delegado: Sua idade?
Testemunha: 40 anos
Delegado: Qual sua profissão?
Testemunha: Professora
Delegado: Esteja ciente que tudo o que disser será anotado e
ao término deste depoimento, será assinado por você. Certo?
Testemunha: Sim, seu delegado!
Delegado: Hoje, pela manhã, recebemos um telefonema
informando que você encontrou o corpo de uma pessoa na porta de seu
apartamento. Poderia descrever como os fatos aconteceram?
Testemunha: Sim senhor. Eu tinha acabado de acordar, estava
lavando o rosto quando a campainha tocou. Fui atender; e quando abri a porta
encontrei o corpo daquele homem, caído. Pensei que tivesse desmaiado; mas
quando abaixei para ajudá-lo percebi que estava gelado. Então me assustei ainda
mais e corri ligar para a polícia.
Delegado: Você o conhecia?
Testemunha: Conhecia não, mas já tínhamos nos encontrado no
elevador. Ele sempre apertava o botão do último andar.
Delegado: Quando atendeu a campainha, percebeu mais alguém no
corredor?
Testemunha: Não senhor. Mas havia um cheiro de perfume barato
e de cigarro.
Delegado: Por que acha que essa informação é importante?
Testemunha: Não acho. Apenas o cheiro era muito forte; como
alguém que acabou de passar.
Delegado: Não poderia ser de algum vizinho?
Testemunha: Se alguém tivesse passado por ali acho que
bateria em minha porta por causa do cadáver ou chamaria o síndico e haveria um
alvoroço antes d’eu sair do apartamento, e estava tudo quieto no corredor até o
momento que a polícia chegou.
Delegado: Muito bem, obrigado por sua contribuição. Se souber
de mais alguma informação, comunique-nos.
Testemunha: Disponha, com licença.
Após algumas semanas
Delegado: acho que a senhora gostaria de saber o que
aconteceu, por isso a chamei aqui. Investigando, a polícia descobriu que aquele
homem tinha problemas de saúde. Era um antigo cafetão que fora morto por uma
prostituta (a mais antiga, segundo as más línguas). Ele havia exagerado na
bebida e tinha fumado um baseado. Ela, a Dama
da Noite, cansada dos maus tratos, obrigou-o a subir as escadas, mentindo
que o elevador não estava funcionando. Como ela esperava, o velho não aguentou
e teve um ataque cardíaco. Como era muito pesado, ela não conseguiu levá-lo até
seu apartamento. Então arrastou-o e abandonou na porta mais próxima.
Testemunha: Mas então, por que tocou a campainha?
Delegado: Segundo a Dama
da Noite, foi por consideração, por todos esses anos juntos...!
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